Quem virou a página do calendário em cima da mesa?
Já é junho.
Estamos entre uma Virada Cultural e a Parada Gay; eventos que expressam uma absolutamente tímida evidência do desejo e necessidade de criação de espaços públicos na cidade, onde convivam diversidades. Não se trata da realização de passeatas ou marchas, sem tirar a importância destas, mas a construção e fortalecimento de lugares em que se está simplesmente porque é agradável, pode-se conhecer , olhar, conversar no mesmo ambiente que outras pessoas conhecidas e desconhecidas. Não há necessidade de se consumir para poder sentar em uma cadeira. Não é preciso solicitar um serviço para cumprimentar outra pessoa e estabelecer um diálogo. No almejado espaço público você não tem que cultuar qualquer nomeado deus, entidades, projetos ou marcas. A lição de Viradas e Paradas é que apenas esses momentos de vida pública não bastam, 24 horas de cultura é muito pouco em um ano com 8760 horas. Apenas um dia para celebrar toda e qualquer forma de diversidade também é muito pouco. A fórmula da política de pão e circo que se aprende na escola não pode se atualizar em pleno século XXI.
Para uma crônica, basta dizer que os recursos públicos estão tortos e mal direcionados para os carros, para o reforço da segurança e que as obras públicas são construídas menos por uma necessidade da maioria da população e mais por qualquer acordo escuso entre forças políticas e empreiteiras. Quem se opõe? Onde é o fórum em que se pode debater e redirecionar os investimentos e políticas para onde é realmente preciso? Por ora, temos apenas cidadãos carregando pequenos balões sobre suas cabeças com indignações dando voltas inexpressivas. Estes cidadãos têm muitas oportunidades de reclamar: no trabalho, no ônibus, para o taxista, para o analista, na mesa do bar. Mas e daí? O que muda? Onde se muda?
Por hora, vive-se sob o comando invisível a gritar:
- Fechem as janelas de seus carros, a rua é perigosa! Há bandidos em toda parte, eu vi no jornal. Quando estou em casa, fico sempre vendo TV para saber o que está acontecendo lá fora porque ei fico entre aqui e o trabalho, é um trânsito tão grande, mais de duas horas para ir e mais duas para voltar-
Chega! Cada vírgula do discurso do paulistano é previsível, apesar de sua versões variadas de pontos de partida e chegada e quem sabe de meios de locomoção.
E para completar meu pequeno texto também cheio de obviedades ainda sem solução, devo ressaltar que também não se deve trocar as ruas como espaço público pela a idéia que este lugar é na internet. Tente adicionar na wikipedia uma frase ao verbete “Virada Cultural” e descubrirá que a página não está aberta para edição e você precisa solicitar qualquer sugestão de modificação para um “administrador”.
Enquanto a enciclopédia virtual e pretensamente participativa cria também seus labirintos de controle e restrição, deixo aqui, a título de compartilhamento o que foi o pedido nº 58 para o administrador:
“Peço o acréscimo da seguinte frase: ‘A maior parte da programação da Virada Cultural acontece em regiões centrais da cidade onde está em curso um processo de [gentrificação], em que é notável a falta de elaboraração de políticas públicas em consonância com os direitos humanos seja para a população de rua, seja para usuários de crack ou meninos e meninas em situação de rua, que dormem no espaço público onde não há convívio da população da cidade em geral, que prefere comprar o discurso que a cidade é perigosa, que são necessários carros blindados e condomínios com segurança 24 horas.’
Olá, é minha primeira vez neste blog. Gostei e concordei com seu texto, fora a parte em que critica a Wikipédia. Não porque ela não mereça crítica, mas porque um verbete de enciclopédia não é lugar para opiniões pessoais e discursos políticos como o que você propõe. Neste contexto, o problema dos moradores de rua não tem nada a ver com a Virada Cultural, sendo que eu, no lugar do administrador, não o incluiria. Embora eu respeite e defenda seu direito de emitir opiniões pessoais e políticas em outros foros.
Olá Durval,
Parte de minha vontade de propor um acréscimo ao verbete foi para também propor um repertório político à Virada. Acho importante não separarmos a virada do contexto político geral da cidade. Quando se analisa a gentrificação, levo em conta o fato dela operar em vários sentidos. Existem diversas políticas para o centro da cidade que buscam afastar os moradores de rua, como, por exemplo, o fechamento dos albergues e a diminuição ou cancelamento de convênios entre a prefeitura e associações que prestam serviço justamente junto às populações mais carentes. Neste sentido, a Virada Cultural, com sua boa intenção de tornar o centro em um espaço de convivência cultural, também dialoga com a realidade dessas ruas. O que foi feito com os usuários de crack durante a Virada?
Legal receber seu comentário, já conseguimos criar um pequeno fórum para opiniões pessoais e políticas…
Olá,
Também a primeira vez no blog – que conheci por um post do sítio Apocalipse Motorizado.
Para além de concordar com as idéias do texto, gostaria de fazer um chamado à reflexão de Durval, que comentei também seu escrito:
- pode até ser, e respeito sua opinião, que a Wiki não deva aceitar posicionamentos políticos – o que, na minha opinião, é questionável (já que institui a idéia de um censor que julga as opiniões e coloca em dúvida a capacidade de senso crítico das pessoas em geral – além de, no fim das contas, não cumprir com a possibilidade de livre expressão pela “enciclopédia do século XXI”, como ela mesmo muito propagandea) -, agora uma coisa é certa.
E ela tem a ver, justamente, com a Virada Culturas. Gastar grande parte do orçamento das políticas públicas municipais da Secretaria da Cultura em apenas um único evento e dia não tem nada que ver com decisões políticas – além do que tomadas sem a participação dos grupos que fazem acontecer a cultura na e da cidade?
É de se pensar…
Para terminar, dialogando com “óbvio” do texto apresentado, fica aqui a minha continuidade desta conversa:
“Todas as coisas já foram ditas; mas como ninguém escuta é preciso sempre recomeçar. André Gide, escritor francês (1869-1951)”
Abraços.
Oi Xavier,
Refleti um pouco sobre esta idéia de “enciclopédia do século XXI”. De fato, ainda temos que aceitar o conceito de que há um texto isento e pretensamente neutro, digno de uma enciclopédia. Para que serve, afinal, o conhecimento, se não para transformar?
Gostei de seu comentário sobre o fato de que a Virada é feita sem a participação dos grupos culturais da cidade. E ainda tem a idéia de que trazer algum grupo de fora do país é cool e chique. Houve sim espetáculos estrangeiros belos, mas francamente aquele piano pendurado num guindaste sem que se pudesse escutar nada o que o pianista tocava… E aposto que existe sim possibilidades tecnológicas para fazer o som em espaço público acontecer com qualidade.
Boa frase do André Gide. Foi inspiradora para uma andarilha e ciclista urbana que vê alguns desaforos por aí.