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Archive for janeiro \02\UTC 2008

noites antigas

Todos os dias, após a janta, a avó oferecia café preto sem açúcar para São Benedito e a lagartixa aparecia no vitrô da cozinha para caçar moscas. A menina, por sua vez, caçava com a ponta dos dedos as migalhas de pão espalhadas sobre a toalha de flores azuis. Depois, a avó ia até o banheiro tirar a dentadura. Já sem os dentes, aconselhava a neta a usar um lenço de seda ao despir-se para não bagunçar o cabelo. O rosto da velha era muito branco, a pele fina mal bastava para cobrir os ossos saltados da maçã do rosto. A menina era obrigada a escovar os dentes. Ela não gostava de colocar a escova dentro da boca. Cada vez que o fazia, sentia uma ânsia percorrendo o corpo. O relógio de madeira batia alguma hora muito tarde e o avô dizia: “menina, está na hora de dormir”. Mirna subia a escada de gatinho, levando o penico azul e pedindo para o avô prometer que não desligaria a luz do corredor no meio da noite . Minutos depois, a avó entrava no quarto para vestir a menina, mostrar uns folhetinhos com orações e fotinhos dos santos e lamentar que se a vista fosse boa, ela poderia fazer uma novena para São Camilo, que, por sua vez tinha como motivo de sua santidade ser o santo dos enfermos. Tarefa árdua.

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