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Archive for março \23\UTC 2008

Mulheres de tinta

Joana aceitou ser todos os olhos de todas as criaturas pinceladas por ela. As mulheres acrílicas doaram-lhe o cheiro de suas peles e suas vias secretas de sentir prazer. Joana, uma mulher só, precisou se infiltrar pelas dobras da noite, saciar-se nos espaços entre os toques, despertar a sensibilidade sob as unhas para compartilhar sua entrega. . Joana enxergou a breve silhueta do amante com camadas de tinta. As outras mulheres bidimensionais também o amavam, também o sentiam. Na manhã seguinte, Joana estava arredia. Ela cedeu às criações e esqueceu-se do ciúme que agora voltava avassalador, junto ao medo de se submeter aos estranhos códigos da pintura. E Joana era de tinta também.

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entre

caminho com a fé emprestada da mulher que vi na praia

chego no lugar macio entre um acontecimento e outro

descubro no intervalo o mais incrível capítulo de minha vida

o depois e antes de qualquer coisa que se pode expressar

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de barça

Dalilita,

Os dias correm entre a euforia do café, a luz calma dos chás e a angústia dessa competiçao entre as batidas do coraçao e as do relógio. E será que eu descobri a espessura do tempo? O aroma da vida? O berço da palavra?—————–

Poderia dizer que a vida está bela, mas eu nao estou lá essas coisas, embora esteja me segurando em nao sei que pilares, mas algum pilar!!!!!!
Hoje foi minha última aula de pintura. Poderia ficar mais algumas semanas trabalhando na tela, mas já existe um todo feito e sei que ainda nao tenho recursos para chegar nos meus ideias pictóricos. Tirei algumas fotos do ateliê e subiu até a boca uma vontade louca de chorar.

Nada acaba, mas eu nao sei se cabe tanta coisa dentro de mim, eu nao sei estruturar tanta humanidade, tanto sentimento, o sol que se estampa diferente a cada dia, nossas armadilhas, a morte. Os fragmentos, as tecelas do mosaico que nao formam nenhuma identidade, somos um grande caldeirao, mexemos tudo com um piscar de olhos. Avassaladora essa dona vida, no que nos causa de boas e más sensaçoes. E tudo é o real. Aquele mesmo real que puxamos pelas orelhas em algum café do centro, em algum doce do Trianon, em alguma garrafa de vinho ou cálice de conhaque, em algum cinema, em algumas palavras de Gullar, Beauvoir, Clarice, Spinoza, em alguma paixao correspondida ou nao. Aiiiiiiiii. Esgota, mas nao desgruda!

Fico imaginando seu pai e como seu estado está te afetando. Fico mal. Sei que nao deveria escrever isso porque vc já tem preocupaçoes o bastante, mas é que é tao incompreensível e tao “acontecendo”. E temos que nos manter.
Aqui a intensidade das coisas estao minando porque eu estou bastante minada com tudo. Encarei bem a morte da minha avó, mas minha irma entrou na paranóia de que nao falou para ela o quanto a amava, o quanto era importante e etc. UM certo sentimento de culpa por um passado que nao pode ser modificado. Eu, em resposta, escrevi um e-mail um pouco duro. Acho que minha irma deve ter pensado que eu sou um Mersault da vida, quem sabe, essa suposta frieza seja minha única proteçao.

Segunda feira vou para Granada.
Se eu te contasse o que passa em algumas partes do meu pensamento. As magnólias, a Andalucia, o vermelho e amarelo. Sim, essa Espanha nao é a que estou. Aliás, para mim é difícil escrever que estou na Espanha. Barcelona é uma metrópole, uma cidade incrível, mas uma cidade da Catalunia.
Os cavalos
a água
a essência melancólica de um jardim
a lua
a carne

Nao sei.
beijos,
Gi

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carta fatal beco

Antonia e Vicente,

Há quanto tempo não lhes escrevo uma carta? Estranha amizade que se faz de palavras cochichadas. Segredos desencontrados que eu forçosamente transformo em frases. Estou desde às cinco da tarde dentro desse apartamento. As paredes me comprimem. É fatal olhar para o corredor. Há vento. As extremidades do corpo estão geladas. Sinto um gosto ruim na boca e o coração bate devagar por ninguém. Ele é um autônomo e eu estou apaixonada sem ele. Descompassada como quem bebeu muita vodka e foi ler a previsão do tempo. Tento criar, mas meu corpo hoje descoloriu – se. Não há sal nem café que me mova.

Hoje eu preciso tanto dos olhos de vocês lendo essa carta, que é a tentativa de forçar um adjetivo para esse estado. Cada palavra digitada é uma ação que faz cócegas na minha inércia.

Busco aceitar esse estado. Estou irreconhecível. Os lábios não querem despejar palavras exageradas. Hoje estou aqui para aprender a sentir isso. Isso não usa máscara, é assim mesmo, o corpo antes da nudez. Escrevo para amigos que posso, quando o sol voltar a arder, amarei. Agora não amo ninguém. Sou apenas uma respiração superficial, olheiras e praticamente apenas um organismo funcionando e mãos datilografando.

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Dalilita,
Estou eu aqui na Cásper depois da consulta na nefrologista. Tenho que fazer alguns exames, o que me enche de preguiça. Esses dias em Aldeia foram mornos e garoados!! Minha mãe biruta me deu um livro sobre o feminino reprimido. Achei o presente excessivamente contraditório, pois quem não quer me ver como mulher é ela, mas enfim, achei tudo divertido e instrutivo. Parece que 2003 é o ano em que eu realmente percebo que estava me afogando nas cavernas de Hécate. Poxa, até que gostei do livro. Li rápido e dei para Lígia levar para Holanda para que ela não corra o riso de negar esse mistério esquisito que nosso corpo carrega. O livro falava sobre a religiosidade que surge em em nós quando finalmente damos vazão a deusa perdida. Ok, lá estavam os milhões de mitos e termos junguianos que minha mãe tanto preza, mas acho que os tais mitos encontram sua versão atual na Avenida Paulista!! As garrafas de jibóia viram uma poesia excessivamente realista e eu me assusto com o êxtase que posso experimentar ao sentar na sala e beber um chá. Estou toda para dentro e para fora. Papos para saborear um expresso. Aliás, decidi que virarei uma cleptomaníaca de colherzinhas de café. Guardarei todas na bolsa e quando sentar em algum lugar onde o valioso café for servido com as pás de plástico nada charmosas, eu sacarei da bolsa minha coleção. Ai, delírios…
Anpan, não achei nada na internet sobre a Maria Lúcia de Oliveira (aquela mulher da tv que falava sobre as sociedades matriarcais de 2500 a.c.). Em compensação, acho que tive uma luz para darmos um confuso ponta pé inicial na nossa pesquisa. Mas isso é surpresa!! Principalmente porque quero escrever um roteirinho com você. Acho que vamos aprender muito.
Bom, acho que vou te ligar.
Grande beijo,
Gi

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entes

Nego d´agua na margem do São Francisco.

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