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Archive for março \23\UTC 2008

Mulheres de tinta

Joana aceitou ser todos os olhos de todas as criaturas pinceladas por ela. As mulheres acrílicas doaram-lhe o cheiro de suas peles e suas vias secretas de sentir prazer. Joana, uma mulher só, precisou se infiltrar pelas dobras da noite, saciar-se nos espaços entre os toques, despertar a sensibilidade sob as unhas para compartilhar sua entrega. . Joana enxergou a breve silhueta do amante com camadas de tinta. As outras mulheres bidimensionais também o amavam, também o sentiam. Na manhã seguinte, Joana estava arredia. Ela cedeu às criações e esqueceu-se do ciúme que agora voltava avassalador, junto ao medo de se submeter aos estranhos códigos da pintura. E Joana era de tinta também.

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entre

caminho com a fé emprestada da mulher que vi na praia

chego no lugar macio entre um acontecimento e outro

descubro no intervalo o mais incrível capítulo de minha vida

o depois e antes de qualquer coisa que se pode expressar

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carta fatal beco

Antonia e Vicente,

Há quanto tempo não lhes escrevo uma carta? Estranha amizade que se faz de palavras cochichadas. Segredos desencontrados que eu forçosamente transformo em frases. Estou desde às cinco da tarde dentro desse apartamento. As paredes me comprimem. É fatal olhar para o corredor. Há vento. As extremidades do corpo estão geladas. Sinto um gosto ruim na boca e o coração bate devagar por ninguém. Ele é um autônomo e eu estou apaixonada sem ele. Descompassada como quem bebeu muita vodka e foi ler a previsão do tempo. Tento criar, mas meu corpo hoje descoloriu – se. Não há sal nem café que me mova.

Hoje eu preciso tanto dos olhos de vocês lendo essa carta, que é a tentativa de forçar um adjetivo para esse estado. Cada palavra digitada é uma ação que faz cócegas na minha inércia.

Busco aceitar esse estado. Estou irreconhecível. Os lábios não querem despejar palavras exageradas. Hoje estou aqui para aprender a sentir isso. Isso não usa máscara, é assim mesmo, o corpo antes da nudez. Escrevo para amigos que posso, quando o sol voltar a arder, amarei. Agora não amo ninguém. Sou apenas uma respiração superficial, olheiras e praticamente apenas um organismo funcionando e mãos datilografando.

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entes

Nego d´agua na margem do São Francisco.

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