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Archive for abril \29\UTC 2008

Ela nem se lembra como aprendeu a estender as roupas no varal. Provavelmente foi observando sua avó Emília que saía para o quintal pelas manhãs com um chapéu plástico vermelho que imitava a textura de padrões artesanais de palha. pendirado nas abas estavam os prendedores de madeira. A avó fazia tudo um pouco mecanicamente. Uma vez estendidas as roupas, ela entrava e sentava na mesa da cozinha para separar feijão, descascar batata e anotar no avesso de alguma caixa de remédio a lista de compras. A avó não gostava de cozinhar, mas sua comida era ótima. Sempre que Regina estendia as roupas no varal, ela se lembrava de sua avó. Como sua avó era chata. Como sua avó só lhe dava conselhos inúteis como o de amarrar um lenço de seda na cabeça quando fosse pôr ou tirar a blusa. “Assim você não desordena os fios”, dizia a avó. Dizia também para não usar roupas apertadas que os seios não cresciam.

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Romã

É a fruta de um amor assimétrico.

Granada, em espanhol.

Era madrugada.

Estávamos sentados na areia de uma praia de Barcelona.

Ele descreveu a geometria da fruta.

Eu não conseguia visualizar.

Levantou-se.

Disse que não gostava de lugares muito abertos.

Fomos ao supermercado 24 horas.

Ele comprou três granadas.

Fomos para o apartamento dele.

Brutal navalha na casca dourada e vermelha.

Gelatina cor de groselha envolvendo sementes brancas.

Eu quis gritar.

Devorei a fruta.

Gritei.

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Tome sete

Pediu ao curandeiro um tratamento para seu mal.
O homem entrou em seu laboratório.
Voltou com um vidro âmbar cheio de comprimidos.
A pintora perguntou a composição do remédio.
-a frequência das luzes do arco-íris, ele respondeu.
Desde então,
a mulher só pinta comprimidos.

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Chuva presente

Pequena chuva

Pinicando a pele

São formigas atrás de doce

Escorrem pelo azul

Ponta do dedo dentro do olho

É só sal

A menina abre a boca para o céu

Formigas na língua

Água doce pela garganta

Encontra o vento

Água que me abraça

Um menino bem azul

Na rua fico prateada

Inventamos o tal do blues

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O cerco

Seus dias calados buscam uma forma redonda,
furada,
de metal pesado.
Contornos de um silêncio mudo por não poder nas palavras.
Ele está prestes a moldar o amuleto maldito.
Esconderá a peça da tribo.
Nova roda dentro do escuro desliza até as pupilas.
Ele não verá mais nenhuma imagem que não seja sua criação.

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tragadas


Estendida de bruços sobre o piso, ela solta devagar a fumaça espessa e perfumada do cigarro. A graça é nublar a atmosfera que separa seus olhos das tábuas envelhecidas e riscadas do chão. Nesse espaço ínfimo, o sopro da boca cria formas. É ela quem controla a densidade das nuvens destacadas do céu de madeira. Agora a árvore é um chão duro; a única possibilidade de paraíso para a mulher que fuma. Ela olha para o céu, quanto mais olha mais a cortina de fumaça se interpõe. A matéria enevoada prolonga o espaço com cheiros, curvas brancas e transparentes que se esfregam e se dissolvem. Tudo lento, uma cambalhota ensimesmada. Ela sente a moleza se intensificando pelos músculos, as pálpebras mais pesadas. Ela cerra os olhos. Novo céu para a mulher. Céu muito escuro com manchas coloridas. O céu possível, da carne grudada no olho. Fim do dia. Dormir.

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