Feeds:
Posts
Comentários

Archive for novembro \12\UTC 2008

na rua

Luísa tocou a campainha para comprar gelinho. Viu aparecer no fundo do corredor lateral a mulher de cabelos negro, longos e espinafrados. A vendedora perguntava qual sabor. Luísa sabia todos de cor: limão, morango, abacaxi, amendoim, coco. Antes de proclamar o último sabor da lista, a mulher respirava fundo, levantava a sobrancelha direita, mirava Luísa nos olhos e falava “groçelha”. A menina ficava feliz, adorava a língua presa da vizinha.

Quando ia passear com sua tia-avó, conversava com as pessoas imitando a mulher que vendia gelinho. Sua tia, apertava sua mão em reprimenda e ela perguntava insolente: por que você está me apertando tanto, tia? A mulher aparecia com o doce. Luísa abria um sorriso. Esfregando a ponta da língua nos lábios adocicados.

Era meio dia. As mães e avós se penduravam nos portões das casas e berravam para as crianças entrarem para o almoço. Tirar a menina da rua era sempre uma grande batalha.

Indiferente aos gritos, ela continuava a lamber lábios e mãos. O sabor doce ganhava retoques de sal. Era o suor pingando dos cabelos e se misturando ao vermelho artificial do suco congelado.

A língua de Luísa estava vermelha. A de Fábio verde. A de Estela marrom. Cada um com seu sabor preferido. Ainda pela manhã, a língua de Luísa estava branca e ressecada. Acordou e saiu de casa com a roupa que dormiu. Descabelada, com um pão francês apertado na mão esquerda e um punhado de giz esfarelando na mão direita.

– Fábiooooooooooooo. Vem brincar! Gritava ela para a casa ao lado da sua. Fábio descia com uma bola. Os cabelos negros estavam como sempre molhados e penteados para o lado. A avó de Fábio gostava de arrumar o menino. E ele sentia-se útil para distrair sua avó da solidão da velhice.

Anúncios

Read Full Post »

fragmento

Foi a cena que sua memória jamais guardaria:
O ângulo formado entre a porta aberta e o batente.
A luz que escapava por essa passagem da cozinha para o corredor.
O tecido gasto que amarrava na nuca os cabelos grossos da mulher.
A mão direita dela fechando a torneira da pia de mármore.
O esmalte rosa antigo descascando horrivelmente.
O vestido que ele nunca soube se era azul-marinho muito escuro ou preto. ( ela dizia que era petróleo…).
A voz de um locutor descrevendo o incrível nascimento de um leopardo no zoológico misturando-se ao ruído do último jato d`água da torneira.
A conta de gás estrategicamente deixada sobre a cadeira onde ele costumava guardar sua maleta do serviço.
Os três latidos esganiçados do Peter no quintal.
O convite entusiasmado para ir com a mulher ao zoológico no sábado visitar o bebê leopardo.

Read Full Post »