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Archive for junho \26\UTC 2011

O que mais me surpreendeu do furto do carro, ou do “sinistro”, como a seguradora chama o incidente, é como esta trivialidade urbana já está dentro dos protocolos. Para a polícia, a cotidianidade é tal, que posso fazer o boletim de ocorrência pela Internet, no conforto do lar. Os campos a serem preenchidos na página da delegacia eletrônica atendiam às necessidades de descrição de qualquer cidadão. O rapaz do seguro, de nome Afonso, também tinha uma resposta na ponta da língua para todas minhas dúvidas, que eram as mesmas de todos outros cidadãos que tiveram seu carro furtado e nem se abalaram muito, afinal, era para isso que pagavam mensalmente uma cota para não acharem estranho que, de repente, uma máquina enorme sumisse do mapa. Se eu fosse fazer uma sugestão para a seguradora, esta seria a de treinar os atendentes a dizerem “eu sinto muito”, afinal de contas, são eles que denominam um furto como um sinistro. Sinistro absolutamente sob controle, sinistro educado, bem atendido, com procedimentos claros a serem cumpridos. Também os ladrões são bastante profissionais. São silenciosos, ágeis e devem ter destino garantido para cada parte do veículo. Espero que levem as três sacolas de lixo reciclado que estavam no porta-malas para um posto de coleta. Acho que ficaria bem mais chocada se levassem minha bicicleta, que pegarei amanhã no Ceará Bike, onde deixei para fazer uma revisão. Para as bicicletas não há nenhum procedimento, nenhuma educação, nenhuma via para se locomover com segurança.

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Aconteceu de tornar-se uma palhaça de trupe formada por um moço cumprido que toca sanfona, um fotógrafo de paredes, edifícios e quarteirões demolidos do bairro da Luz, uma mulher de Recife, feminista, o homem que morou dez anos na Inglaterra e interessa-se por filosofia da matemática e o estudioso de paisagem e poesia. Trupe de pessoas da cidade, pessoas de cantos, arestas, que com uma suficiência satisfatória de alegria saem com seu bloco pelas ruas, durante o Carnaval paulistano. Tudo beira, silenciosamente, a decadência. A cidade foi evacuada, o sol parece de inverno, a palhaça acredita na potência de agitamento causado pela sua indumentária de bolas coloridas de vermelho, amarelo, verde, um babado, um dourado. Promessa ínfima e reticular no cenário de restos. Se não houvesse graça nisso, a palhaça derradeira certamente não faria a travessia com o bloco carnavalesco.

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livre- versão 2


E tu, arlequim,

enroscado em seus andaimes,

descobre que sempre teve corpo

e que tantos canos, conexões e degraus

não eram necessários.

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resto

de tão resto dá

uma alegre coceira de cão

que sem saber de nada melhor a fazer

baforeja pela boca

mal sentado

seu corpo se sacode

e as patas traseiras

acertam a orelha

pra se coçar:

as pulgas são inéditas

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cidade

Adensado de gente, uma morando em cima da outra, todas precisando, odiando, cansadas, modernas, antigas, com pressa, entediadas, vigaristas, religiosas, vindas de cima, de baixo, do lado do mapa, urgentes, móveis, soturnas, irritantes, interessantes. Cidade que insiste em tornar-se profícuo território, forma insondável. Palavra que já vem com demolições, vidas inteiras, preconceitos, tempos. Palavra pegajosa a intrometer-se nos sussurros dos casais, nas negociações dos empresários, na descoberta das crianças, nas discussões no bar. Território demandante de atenção, de escritas, de estudos, de intervenções, de governo, de protesto, de indiferença, de ficar nela, empanturrar-se dela, dissipar-se, já não conseguir distinguir o corpo das vias, dos cheiros, dos helicópteros e dos ratos. O pensamento inesgotável e inapreensível é cidade. Eu corro atrás dele, anotando o que posso, como posso, sem querer parar, sem poder apertar o stand by para esperar que a terra se assente, que a humanidade se decida. Uma, duas, três xícaras de café (…)

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O quê se escreve aqui é também o resto palavreável de invenções em planos embaralhados. Invenção-nó, em que a questão não é desatá-lo, mas experimentá-lo como tal. No meio do que se compõe, um pensamento quer acostumar-se, pede descanso e forma estável. Mas embaixo dele ou nele mesmo outra força empurra, obriga a escrita a alargar-se, traça círculos lúdicos e assimétricos, tropeça, delimita algum lugar e, logo, nenhum lugar, empurra onde antes não havia, vai de jeitos e sentidos variados, apaga, pisca, é.

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