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Archive for the ‘andarilha urbana’ Category

Anda com a língua passando devagar pelos dentes, encostando neles, esfregando-se. Cada vez que sorri, mostra as pontas do esqueleto se esgueirando para fora. Sentir-se de pedra em processo de calcificação, descalcificação. Matéria antiga dentro do corpo.

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O que mais me surpreendeu do furto do carro, ou do “sinistro”, como a seguradora chama o incidente, é como esta trivialidade urbana já está dentro dos protocolos. Para a polícia, a cotidianidade é tal, que posso fazer o boletim de ocorrência pela Internet, no conforto do lar. Os campos a serem preenchidos na página da delegacia eletrônica atendiam às necessidades de descrição de qualquer cidadão. O rapaz do seguro, de nome Afonso, também tinha uma resposta na ponta da língua para todas minhas dúvidas, que eram as mesmas de todos outros cidadãos que tiveram seu carro furtado e nem se abalaram muito, afinal, era para isso que pagavam mensalmente uma cota para não acharem estranho que, de repente, uma máquina enorme sumisse do mapa. Se eu fosse fazer uma sugestão para a seguradora, esta seria a de treinar os atendentes a dizerem “eu sinto muito”, afinal de contas, são eles que denominam um furto como um sinistro. Sinistro absolutamente sob controle, sinistro educado, bem atendido, com procedimentos claros a serem cumpridos. Também os ladrões são bastante profissionais. São silenciosos, ágeis e devem ter destino garantido para cada parte do veículo. Espero que levem as três sacolas de lixo reciclado que estavam no porta-malas para um posto de coleta. Acho que ficaria bem mais chocada se levassem minha bicicleta, que pegarei amanhã no Ceará Bike, onde deixei para fazer uma revisão. Para as bicicletas não há nenhum procedimento, nenhuma educação, nenhuma via para se locomover com segurança.

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Aconteceu de tornar-se uma palhaça de trupe formada por um moço cumprido que toca sanfona, um fotógrafo de paredes, edifícios e quarteirões demolidos do bairro da Luz, uma mulher de Recife, feminista, o homem que morou dez anos na Inglaterra e interessa-se por filosofia da matemática e o estudioso de paisagem e poesia. Trupe de pessoas da cidade, pessoas de cantos, arestas, que com uma suficiência satisfatória de alegria saem com seu bloco pelas ruas, durante o Carnaval paulistano. Tudo beira, silenciosamente, a decadência. A cidade foi evacuada, o sol parece de inverno, a palhaça acredita na potência de agitamento causado pela sua indumentária de bolas coloridas de vermelho, amarelo, verde, um babado, um dourado. Promessa ínfima e reticular no cenário de restos. Se não houvesse graça nisso, a palhaça derradeira certamente não faria a travessia com o bloco carnavalesco.

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cidade

Adensado de gente, uma morando em cima da outra, todas precisando, odiando, cansadas, modernas, antigas, com pressa, entediadas, vigaristas, religiosas, vindas de cima, de baixo, do lado do mapa, urgentes, móveis, soturnas, irritantes, interessantes. Cidade que insiste em tornar-se profícuo território, forma insondável. Palavra que já vem com demolições, vidas inteiras, preconceitos, tempos. Palavra pegajosa a intrometer-se nos sussurros dos casais, nas negociações dos empresários, na descoberta das crianças, nas discussões no bar. Território demandante de atenção, de escritas, de estudos, de intervenções, de governo, de protesto, de indiferença, de ficar nela, empanturrar-se dela, dissipar-se, já não conseguir distinguir o corpo das vias, dos cheiros, dos helicópteros e dos ratos. O pensamento inesgotável e inapreensível é cidade. Eu corro atrás dele, anotando o que posso, como posso, sem querer parar, sem poder apertar o stand by para esperar que a terra se assente, que a humanidade se decida. Uma, duas, três xícaras de café (…)

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Caminhar com uma pedra no sapato sem parar para tirá-la. Assim, não se esquece do que quer escrever até ter papel e caneta. A história começa com a possibilidade de dar carona a uma pedra, acompanhá-la dali até aqui na cidade.

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viradas e paradas

Quem virou a página do calendário em cima da mesa?

Já é junho.

Estamos entre uma Virada Cultural e a Parada Gay; eventos que expressam uma absolutamente tímida evidência do desejo e necessidade de criação de espaços públicos na cidade, onde convivam diversidades. Não se trata da realização de passeatas ou marchas, sem tirar a importância destas, mas a construção e fortalecimento de lugares em que se está simplesmente porque é agradável, pode-se conhecer , olhar, conversar no mesmo ambiente que outras pessoas conhecidas e desconhecidas. Não há necessidade de se consumir para poder sentar em uma cadeira. Não é preciso solicitar um serviço para cumprimentar outra pessoa e estabelecer um diálogo. No almejado espaço público você não tem que cultuar qualquer nomeado deus, entidades, projetos ou marcas. A lição de Viradas e Paradas é que apenas esses momentos de vida pública não bastam, 24 horas de cultura é muito pouco em um ano com 8760 horas. Apenas um dia para celebrar toda e qualquer forma de diversidade também é muito pouco. A fórmula da política de pão e circo que se aprende na escola não pode se atualizar em pleno século XXI.

Para uma crônica, basta dizer que os recursos públicos estão tortos e mal direcionados para os carros, para o reforço da segurança e que as obras públicas são construídas menos por uma necessidade da maioria da população e mais por qualquer acordo escuso entre forças políticas e empreiteiras. Quem se opõe? Onde é o fórum em que se pode debater e redirecionar os investimentos e políticas para onde é realmente preciso? Por ora, temos apenas cidadãos carregando pequenos balões sobre suas cabeças com indignações dando voltas inexpressivas. Estes cidadãos têm muitas oportunidades de reclamar: no trabalho, no ônibus, para o taxista, para o analista, na mesa do bar. Mas e daí? O que muda? Onde se muda?

Por hora, vive-se sob o comando invisível a gritar:

 

– Fechem as janelas de seus carros, a rua é perigosa! Há bandidos em toda parte, eu vi no jornal. Quando estou em casa, fico sempre vendo TV para saber o que está acontecendo lá fora porque ei fico entre aqui e o trabalho, é um trânsito tão grande, mais de duas horas para ir e mais duas para voltar-

Chega! Cada vírgula do discurso do paulistano é previsível, apesar de sua versões variadas de pontos de partida e chegada e quem sabe de meios de locomoção.

E para completar meu pequeno texto também cheio de obviedades ainda sem solução, devo ressaltar que também não se deve trocar as ruas como espaço público pela a idéia que este lugar é na internet. Tente adicionar na wikipedia uma frase ao verbete “Virada Cultural” e descubrirá que a página não está aberta para edição e você precisa solicitar qualquer sugestão de modificação para um “administrador”.

Enquanto a enciclopédia virtual e pretensamente participativa cria também seus labirintos de controle e restrição, deixo aqui, a título de compartilhamento o que foi o pedido nº 58 para o administrador:

“Peço o acréscimo da seguinte frase: ‘A maior parte da programação da Virada Cultural acontece em regiões centrais da cidade onde está em curso um processo de [gentrificação], em que é notável a falta de elaboraração de políticas públicas em consonância com os direitos humanos seja para a população de rua, seja para usuários de crack ou meninos e meninas em situação de rua, que dormem no espaço público onde não há convívio da população da cidade em geral, que prefere comprar o discurso que a cidade é perigosa, que são necessários carros blindados e condomínios com segurança 24 horas.’

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Virada 2010

Sábado, dia 15 de maio, saí para participar da Virada Cultural. Minhas informações sobre atrações, locais e horários vinham de um boca-a-boca desavisado, um comentários rápido entre uma conversa e outra com os amigos. Não estava muito preocupada em saber a programação. Todos os dados se tornariam acessíveis na própria rua. E, para além de palcos e cantores, caminhar no centro da cidade é o mais estimulante para dar pelo menos uma voltinha na Virada Cultural. Fico feliz de estar com outras pessoas na rua, ser acolhida, homens, mulheres, crianças e jovens de tribos, bairros e gostos variados, um acontecimento com a potência de criar espaço público. Um evento que coloca a rua não apenas como um lugar de passagem, mas um lugar onde se pode permanecer, olhar os prédios, interagir com as pessoas. Mas que fique claro: 24 horas de cultura é ridículo. Cultura precisa de pesquisa, fomento aos grupos, grande e pequenos, populares e eruditos, centrais e periféricos.

Lá pelas 14h, descobri com o Henrique, olhando a programação na Internet, que os velhinhos remanescentes do Buena Vista Social Club se apresentariam às 18h na Praça Júlio Prestes. Combinamos com mais um casal de amigos de assistirmos juntos da varanda do apartamento de amigos que dá exatamente para a frente da Sala São Paulo.

Entre a saída do metrô Luz até chegar no prédio, o caminho de consolidação do contraditório na cidade deixou-me tensa. Chegavam a mente as lembranças passadas de caminhadas pelo bairro da Luz em um dia de sol qualquer, quando vi amontoarem-se pelas calçadas muitas pessoas sentadas, largadas, craqueadas. Não soube como me comunicar com elas. Enquanto caminhava entre pessoas que iam felizes assistir os shows da Virada, lembrei-me das histórias do que muitos chamam de revitalização do centro, mas estou segura é uma indisfarçável gentrificação: reintegrações de posse violentas, fechamento dos albergues para população de rua, construção de espaços culturais com programações caras e proibitivas para os moradores tradicionais da região. Lembrei-me das histórias e dificuldades das pessoas que trabalham junto aos usuários de crack, com as chamadas políticas de redução de danos. Essas pessoas, atuantes em organizaçãoes não governamentais não têm nenhum apoio da prefeitura e costumam ter seu trabalho obstruído pela Secretaria de Assistência Social.

A Virada é tão megalomaníaca que consegue disfarçar as operações em curso no centro da cidade. Mas, enfim, lá estava eu vivendo pequenos momentos dignos de nota:

  • Para não se dizer que sou uma pessimista mal- humorada, a Virada, no geral, foi legal pelo que disse acima: pessoas e mais pessoas na cidade.
  • Mas, putss, quando vi uma bruxa na vassoura suspensa em um fio de aço entre o relógio da Sala São Paulo e a Varanda do prédio de onde eu assistia os cubanos, não tive como não me lembrar da menina que fui. Enquanto a maioria das crianças se encantavam com o show dos palhacinhos que faziam piadas conhecidas, eu não conseguia bater palmas, pois  não estava achando a menor graça. E lá ia a bruxa pra lá e pra cá. Deveria ser algum grupo francês que os curadores acharam chique trazer para o hemisfério sul a fim de divertir as massas. Afinal, a Virada é ou não é inspirada nas Nuits Blanches de Paris? Mon dieu! Paris é aqui!
  • Por outro lado fiquei feliz quando começou o show da Zélia Duncan e todos amigos na Varanda concordaram que apesar dela ser uma mulher super simpática e boa pessoa, sua música é um tanto chata. Mas eu acho que tem mais é que ter show da Zélia Duncan, viva a diversidade. Depois soube que a Elis, que trabalha comigo, foi lá no show da Zélia com seus amigos e gostou.
  • Uma coisa legal da Virada foi que encontrei muitos amigos. Um deles ia correndo pelas ruas com uma garrafa de plástico com um vinho de qualidade mui mui duvidosa. Segundo ele, a ressaca pós- Virada foi uma das piores de sua vida, mas valeu, principalmente pelo show do Sidnei Magal, em que todos vibraram juntos relembrando o frisson dos anos 80 e Rainha da Sucata.
  • Ah, outra coisa ótima foi que Oona e Cris, que moram no Rio, participaram da Virada pela primeira vez. Sair com Oona é sempre muito divertido. Mas ela já estava ficando com sono, pois no dia anterior deu uma festona para celebrar seus 30 anos. Pediu numa lanchonete perto do Vale do Anhangabaú, um Red Bull. Pagou R$12,00. Valor que considerei um escândalo, mas segundo a caixa, o preço é justificado, pois ela e o companheiro estavam juntando dinheiro para voltar para o Ceará. Pelo menos o argumento foi inédito e original.
  • Depois de reenergizados, acompanhamos o show do Airton Moreira e uma outra banda que tocou um blues. A música era boa, mas baixa. Senti vontade de ouvir música alto, com muitas caixas de som, de tal forma que os graves tremessem o chão, os agudos afetassem a iluminação, um vento- música, por assim dizer. Digo que em meu apartamento é difícil eu ligar as caixas no último volume, tem a proximidade excessiva com os vizinhos. Enquanto eu me dava conta disso,  também percebia a vontade de me alongar. Engatei em uma conversa com a Oona sobre como parecia uma coisa incomum alongar-se na rua. E ela, com sua sabedoria, me explicou que o segredo era se alongar, “mas com charme”.
  • Foi entre o show do Airton e o piano suspenso, que eu de fato conheci o Cris, namorado da Oona. Foi um grande encontro, sem dúvida, pois descobri que ele também adora ficar falando inglês com sotaque árabe ou russo, ainda estou para descobrir. E apesar de eu não achar a menor graça nos palhaços, eu mesma gosto de ser uma, principalmente se encontro pessoas que improvisam.
  • Falando de brincadeiras, também fiquei bons minutos de pé com os joelhos flexionados, imaginando ser alguns centímetros mais baixa do que sou. De repente, eu não via mais o palco, mas via as frestas entre os corpos das pessoas e o Henrique ficou mais alto.
  • Sobre o piano suspenso, foi invevitável deixar uma voz minha dizer: no futuro, as pessoas vão dar muita risada desta cena considerada cultural. O piano e o pianista pendurados em um guindaste enquanto a música acontecia num volume quase inaudível… Qual era a graça daquilo tudo se a engenharia não previu a tridimensionalidade da música?

Já perto das três da manhã, o sono nos levou de volta à casa de metrô. E aí eu me lembrei, afinal, o que é um evento para as massas. Antes de atingir a catraca, você tinha que dar muitas voltas em um zigue – zague de grades, um pouco como a rampa do matadouro, as pessoas em fila, devidamente administradas depois de uma dose espetacular de cultura.

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