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Archive for the ‘cartas’ Category

para Celeste

onde tu estiveste

era tudo

sempre

em

floresta

estrelada

pintura naif

de alguem que viu

o pano de fundo

sempre arredondado

acolhendo em ventres

nossas vontades

de nos espreguiçar

celebrando nos músculos

a diferença entre o céu e a terra

neste azul profundo

que só nós podemos ver

celebra o ser humano

em uma cantiga

de fim de tarde

no horizonte

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carta fatal beco

Antonia e Vicente,

Há quanto tempo não lhes escrevo uma carta? Estranha amizade que se faz de palavras cochichadas. Segredos desencontrados que eu forçosamente transformo em frases. Estou desde às cinco da tarde dentro desse apartamento. As paredes me comprimem. É fatal olhar para o corredor. Há vento. As extremidades do corpo estão geladas. Sinto um gosto ruim na boca e o coração bate devagar por ninguém. Ele é um autônomo e eu estou apaixonada sem ele. Descompassada como quem bebeu muita vodka e foi ler a previsão do tempo. Tento criar, mas meu corpo hoje descoloriu – se. Não há sal nem café que me mova.

Hoje eu preciso tanto dos olhos de vocês lendo essa carta, que é a tentativa de forçar um adjetivo para esse estado. Cada palavra digitada é uma ação que faz cócegas na minha inércia.

Busco aceitar esse estado. Estou irreconhecível. Os lábios não querem despejar palavras exageradas. Hoje estou aqui para aprender a sentir isso. Isso não usa máscara, é assim mesmo, o corpo antes da nudez. Escrevo para amigos que posso, quando o sol voltar a arder, amarei. Agora não amo ninguém. Sou apenas uma respiração superficial, olheiras e praticamente apenas um organismo funcionando e mãos datilografando.

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