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Archive for the ‘diário’ Category

embalo os dias com Eliane Radique, Islas Resonantes, apresentada a mim pelos algoritmos do youtube, enquanto busco os sons/ambientes/ruídos próprios para trabalhar com texto, manter a concentração… mas são tempos intensos, muito acontecimento, informação, corpos e afetos, vidas que querem se encerrar e vidas em plena fertilidade exponencial- estamos instalados no meio disso, cuidando do fio ora fino, quase imperceptível e ora uma enxurrada na casa, na cidade, no mundo, atravessamos o oceano… estamos agora entre São Paulo e Madrid, com as paisagens marítimas e da mata atlântica instaladas, corpo índio, corpo caiçara, corpo quilombola, corpo urbano: respiramos na rua do crack, um buraco negro tão preciso em seu pedido de reparação, reparação de todo abuso repetitivo das colonizações, sobreposições, repulsa pela vida que não obedece às linhas inventadas no delírio identitário.

Os zumbis se arrastando ou gritando em louca incorporação pelas ruas são nossos aliados. O corpo paga um preço alto, mas não adere, não se submete. São arredios em sua descomunal força de não se dobrar. Inesperados pontos que se juntam: os craqueiros, os bebês, os pós-gêneros, os jovens negros, as mulheres… Uma língua política que não faz sentido e isso nos dói tanto pensar. Mas a vida não pensa e ela em nós sustenta tramas-nano extra- corpórea, caldeirão em meio ao fim do mundo, outros mundos.

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Lembrei-me novamente daquela mesa em que todos estavam espumando e sem muita alternativa enxugavam com o guardanapo de pano a baba no canto da boca. Usá-lo era tão natural quanto a baba. Eu também usava o guardanapo e era horrível; completamente incompatível com o acúmulo de saliva. Como que essa mesa foi montada? Não queria atrapalhar ninguém, mas eu não estava conseguindo segurar o riso, a baba, o mijo, o sangue. Quando podia, levantava-me, saía, mas não havia nada envolta da mesa, o jogo é aqui, entre palavras, saliva, vida.

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em cuias

acumula-se

o tempo de compor-se

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Aconteceu de tornar-se uma palhaça de trupe formada por um moço cumprido que toca sanfona, um fotógrafo de paredes, edifícios e quarteirões demolidos do bairro da Luz, uma mulher de Recife, feminista, o homem que morou dez anos na Inglaterra e interessa-se por filosofia da matemática e o estudioso de paisagem e poesia. Trupe de pessoas da cidade, pessoas de cantos, arestas, que com uma suficiência satisfatória de alegria saem com seu bloco pelas ruas, durante o Carnaval paulistano. Tudo beira, silenciosamente, a decadência. A cidade foi evacuada, o sol parece de inverno, a palhaça acredita na potência de agitamento causado pela sua indumentária de bolas coloridas de vermelho, amarelo, verde, um babado, um dourado. Promessa ínfima e reticular no cenário de restos. Se não houvesse graça nisso, a palhaça derradeira certamente não faria a travessia com o bloco carnavalesco.

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espírito do tempo

é com pressa

para já estar no futuro

atrasada

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toque

olhei minha barriga
e ela era a de uma velha
enrrugada
a pele
eu podia beliscá-la
beliscar-me
e toda ela demorava-se
a voltar para o lugar
de onde havia saído
a pele
não sei dizer se mais fina
mas certamente com outra gramatura
consistência
um pouco mais fria
deitada sob a mesa
a toalha descortinava-se
para luz que vinha de cima
quem sabe
eu estivesse dentro de uma arena
tourada
descoberta da velhice

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out 2009

não estive aqui

em cada passo

só para correr

mais rápido que a paisagem

raspei cenas

arestas encolhidas

no canto dos olhos

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