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Archive for the ‘meio texto’ Category

A moça

quarto_de_moca

Capítulo I

– Chama a moça para que eu lhe conte todas as lendas que lembrei do tempo que caminhei entre as duas estradas recém-asfaltadas pelo prefeito de lá enquanto chovia horrores sobre as passeatas de mulheres com lenço na cabeça porque seus cabelos só eram soltos à noite quando dançavam debaixo das estrelas a orar em festa para que seus filhos, amantes e gatos pudessem se reunir uma vez por semana para tocar instrumentos o quão alto fosse e regras escritas pela mão de homem que acredita em um só destino fossem desfeitas

Capítulo II –

– Oh moça bonita! Reconheço essa luva xadrez. Era mais uma das peças sacis guardadas na gaveta da sapateira do Osmar. Um brinco do par, uma agulha de tricot. Como se um dia, um homem vestindo um paletó mais largo que sua magreza, fosse bater na porta para entregar a outra peça. Bom saber que você caminha com números ímpares.

Capítulo III-

– não posso demorar

Capítulo IV-

Sem maiores explicações, o homem magro e frio, com a parte superior do corpo desproporcionalmente maior que a inferior, levantou-se, entrou corredor adentro. Quando voltou, abriu as mãos e entregou a foto de partes do relógio. Tudo começa assim na estampa da imagem. São como duas borboletas que voam daqui- ali e a vida passou- densa, impressa, piscada.

Capítulo V-

– obrigada

Capitulo VI-

começo a lembrar-me

dos fios da meada

sou eu lá dançando

em noite futura

iluminar com raios

espirais opacas

camadas de sonho

de barro, pedra, asfalto

anunciam-se roda de saia

gira

em rendas tricots

garrafas sopram suas memórias

escritas ao contrário

do tempo em que aconteceram

contam que tudo inicia-se

quando Dédalo abriu as mãos

e soltou as peças do relógio

Capítulo VII

Saiu para a rua, sentiu a mão direita esfriar. Abriu a bolsa apinhada de coisas e pegou o par da luva. Apressou o passo. Antes de chegar, parou na frente do espelho para ajustar o visual:

Cabelo preso e coberto por um lenço.

Rímel a engrossar os cílios.

Lápis borrado no contorno de olhos em ressaca urbana.

Na porta do café, encontrou as colegas, todas parecidas no uniforme para as próximas horas de trabalho.

Naquele dia ouviu três histórias dos rápidos e inconstantes clientes.Uma do ex- padeiro que abandonou a profissão quando, depois de vinte anos de trabalho, queimou toda a fornada de pães (- Olha, eu fico arrepiado só de lembrar. Qual terá sido minha ofensa?). Outra da mulher que estava reformando a casa depois que a parede rachou, devido às obras do metrô (É muito pó, viu? Haja paciência, socorro aquele monte de homem pra lá e pra cá, barulho, poeira.). E por fim, a do rapazinho que ficou horas contando os como, onde e porque de suas tatuagens (Esta daqui, olha, foi no Leo Studio- muito lôco- levei a foto do jornal e falei- põe a cara dele no meu braço).

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na rua

Luísa tocou a campainha para comprar gelinho. Viu aparecer no fundo do corredor lateral a mulher de cabelos negro, longos e espinafrados. A vendedora perguntava qual sabor. Luísa sabia todos de cor: limão, morango, abacaxi, amendoim, coco. Antes de proclamar o último sabor da lista, a mulher respirava fundo, levantava a sobrancelha direita, mirava Luísa nos olhos e falava “groçelha”. A menina ficava feliz, adorava a língua presa da vizinha.

Quando ia passear com sua tia-avó, conversava com as pessoas imitando a mulher que vendia gelinho. Sua tia, apertava sua mão em reprimenda e ela perguntava insolente: por que você está me apertando tanto, tia? A mulher aparecia com o doce. Luísa abria um sorriso. Esfregando a ponta da língua nos lábios adocicados.

Era meio dia. As mães e avós se penduravam nos portões das casas e berravam para as crianças entrarem para o almoço. Tirar a menina da rua era sempre uma grande batalha.

Indiferente aos gritos, ela continuava a lamber lábios e mãos. O sabor doce ganhava retoques de sal. Era o suor pingando dos cabelos e se misturando ao vermelho artificial do suco congelado.

A língua de Luísa estava vermelha. A de Fábio verde. A de Estela marrom. Cada um com seu sabor preferido. Ainda pela manhã, a língua de Luísa estava branca e ressecada. Acordou e saiu de casa com a roupa que dormiu. Descabelada, com um pão francês apertado na mão esquerda e um punhado de giz esfarelando na mão direita.

– Fábiooooooooooooo. Vem brincar! Gritava ela para a casa ao lado da sua. Fábio descia com uma bola. Os cabelos negros estavam como sempre molhados e penteados para o lado. A avó de Fábio gostava de arrumar o menino. E ele sentia-se útil para distrair sua avó da solidão da velhice.

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Ela nem se lembra como aprendeu a estender as roupas no varal. Provavelmente foi observando sua avó Emília que saía para o quintal pelas manhãs com um chapéu plástico vermelho que imitava a textura de padrões artesanais de palha. pendirado nas abas estavam os prendedores de madeira. A avó fazia tudo um pouco mecanicamente. Uma vez estendidas as roupas, ela entrava e sentava na mesa da cozinha para separar feijão, descascar batata e anotar no avesso de alguma caixa de remédio a lista de compras. A avó não gostava de cozinhar, mas sua comida era ótima. Sempre que Regina estendia as roupas no varal, ela se lembrava de sua avó. Como sua avó era chata. Como sua avó só lhe dava conselhos inúteis como o de amarrar um lenço de seda na cabeça quando fosse pôr ou tirar a blusa. “Assim você não desordena os fios”, dizia a avó. Dizia também para não usar roupas apertadas que os seios não cresciam.

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noites antigas

Todos os dias, após a janta, a avó oferecia café preto sem açúcar para São Benedito e a lagartixa aparecia no vitrô da cozinha para caçar moscas. A menina, por sua vez, caçava com a ponta dos dedos as migalhas de pão espalhadas sobre a toalha de flores azuis. Depois, a avó ia até o banheiro tirar a dentadura. Já sem os dentes, aconselhava a neta a usar um lenço de seda ao despir-se para não bagunçar o cabelo. O rosto da velha era muito branco, a pele fina mal bastava para cobrir os ossos saltados da maçã do rosto. A menina era obrigada a escovar os dentes. Ela não gostava de colocar a escova dentro da boca. Cada vez que o fazia, sentia uma ânsia percorrendo o corpo. O relógio de madeira batia alguma hora muito tarde e o avô dizia: “menina, está na hora de dormir”. Mirna subia a escada de gatinho, levando o penico azul e pedindo para o avô prometer que não desligaria a luz do corredor no meio da noite . Minutos depois, a avó entrava no quarto para vestir a menina, mostrar uns folhetinhos com orações e fotinhos dos santos e lamentar que se a vista fosse boa, ela poderia fazer uma novena para São Camilo, que, por sua vez tinha como motivo de sua santidade ser o santo dos enfermos. Tarefa árdua.

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