Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘velhice’ Category

e agora queria fazer as coisas que uma avó faz

cuidar dos netos sem ser a mãe,

beber chá de ervas mais por hábito que por convicção

ir daqui até ali

e considerar isso emocionante.

 

A ela cabe respirar

a cada vez

sentir o peso nos pés

que agora pisam assim

no calcanhar esculpido

no acúmulo dos passos.

 

Anúncios

Read Full Post »

a poeira nas frestas

as rugas na testa

tudo que enguiça

as práticas de encher linguiça

o quê se lembra

e ali se refresca

o esqueleto

o que era rápido e

agora é lento

a história

e o que nela conta

(lógica que só se pode

de gota em gota)

Read Full Post »

toque

olhei minha barriga
e ela era a de uma velha
enrrugada
a pele
eu podia beliscá-la
beliscar-me
e toda ela demorava-se
a voltar para o lugar
de onde havia saído
a pele
não sei dizer se mais fina
mas certamente com outra gramatura
consistência
um pouco mais fria
deitada sob a mesa
a toalha descortinava-se
para luz que vinha de cima
quem sabe
eu estivesse dentro de uma arena
tourada
descoberta da velhice

Read Full Post »

memória da velhice

O velho é sempre mais notável quando buscamos a profundidade do tempo em suas rugas, o corpo que deixou os anos passarem, mesmo sem entender, mesmo pecando, sem ao menos lembrar porque mesmo que tinha ido parar ali, como era mesmo? Será que um dia já se apaixonou? O velho é tão fresco em sua miopia de lembrar, que o faz ficar ali, como que ruminando seu quase- estar, metade sendo, metade deixando o tempo ser em si.

Read Full Post »

na rua

Luísa tocou a campainha para comprar gelinho. Viu aparecer no fundo do corredor lateral a mulher de cabelos negro, longos e espinafrados. A vendedora perguntava qual sabor. Luísa sabia todos de cor: limão, morango, abacaxi, amendoim, coco. Antes de proclamar o último sabor da lista, a mulher respirava fundo, levantava a sobrancelha direita, mirava Luísa nos olhos e falava “groçelha”. A menina ficava feliz, adorava a língua presa da vizinha.

Quando ia passear com sua tia-avó, conversava com as pessoas imitando a mulher que vendia gelinho. Sua tia, apertava sua mão em reprimenda e ela perguntava insolente: por que você está me apertando tanto, tia? A mulher aparecia com o doce. Luísa abria um sorriso. Esfregando a ponta da língua nos lábios adocicados.

Era meio dia. As mães e avós se penduravam nos portões das casas e berravam para as crianças entrarem para o almoço. Tirar a menina da rua era sempre uma grande batalha.

Indiferente aos gritos, ela continuava a lamber lábios e mãos. O sabor doce ganhava retoques de sal. Era o suor pingando dos cabelos e se misturando ao vermelho artificial do suco congelado.

A língua de Luísa estava vermelha. A de Fábio verde. A de Estela marrom. Cada um com seu sabor preferido. Ainda pela manhã, a língua de Luísa estava branca e ressecada. Acordou e saiu de casa com a roupa que dormiu. Descabelada, com um pão francês apertado na mão esquerda e um punhado de giz esfarelando na mão direita.

– Fábiooooooooooooo. Vem brincar! Gritava ela para a casa ao lado da sua. Fábio descia com uma bola. Os cabelos negros estavam como sempre molhados e penteados para o lado. A avó de Fábio gostava de arrumar o menino. E ele sentia-se útil para distrair sua avó da solidão da velhice.

Read Full Post »

Ela nem se lembra como aprendeu a estender as roupas no varal. Provavelmente foi observando sua avó Emília que saía para o quintal pelas manhãs com um chapéu plástico vermelho que imitava a textura de padrões artesanais de palha. pendirado nas abas estavam os prendedores de madeira. A avó fazia tudo um pouco mecanicamente. Uma vez estendidas as roupas, ela entrava e sentava na mesa da cozinha para separar feijão, descascar batata e anotar no avesso de alguma caixa de remédio a lista de compras. A avó não gostava de cozinhar, mas sua comida era ótima. Sempre que Regina estendia as roupas no varal, ela se lembrava de sua avó. Como sua avó era chata. Como sua avó só lhe dava conselhos inúteis como o de amarrar um lenço de seda na cabeça quando fosse pôr ou tirar a blusa. “Assim você não desordena os fios”, dizia a avó. Dizia também para não usar roupas apertadas que os seios não cresciam.

Read Full Post »

noites antigas

Todos os dias, após a janta, a avó oferecia café preto sem açúcar para São Benedito e a lagartixa aparecia no vitrô da cozinha para caçar moscas. A menina, por sua vez, caçava com a ponta dos dedos as migalhas de pão espalhadas sobre a toalha de flores azuis. Depois, a avó ia até o banheiro tirar a dentadura. Já sem os dentes, aconselhava a neta a usar um lenço de seda ao despir-se para não bagunçar o cabelo. O rosto da velha era muito branco, a pele fina mal bastava para cobrir os ossos saltados da maçã do rosto. A menina era obrigada a escovar os dentes. Ela não gostava de colocar a escova dentro da boca. Cada vez que o fazia, sentia uma ânsia percorrendo o corpo. O relógio de madeira batia alguma hora muito tarde e o avô dizia: “menina, está na hora de dormir”. Mirna subia a escada de gatinho, levando o penico azul e pedindo para o avô prometer que não desligaria a luz do corredor no meio da noite . Minutos depois, a avó entrava no quarto para vestir a menina, mostrar uns folhetinhos com orações e fotinhos dos santos e lamentar que se a vista fosse boa, ela poderia fazer uma novena para São Camilo, que, por sua vez tinha como motivo de sua santidade ser o santo dos enfermos. Tarefa árdua.

Read Full Post »