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urbanidades

Um texto com o barulho do helicóptero

consideramos as distrações

os ruídos

eles são também persistentes

repetem-se

o penteado da peruca

A mulher caminha pela rua levando em um suporte uma peruca. Olha com discrição e curiosidade os cabelos das pessoas, não há nenhum especial, mas todos parecem lhe dar ideias incríveis. Passa do outro lado da rua uma senhora com uma peruca de volume descomunal, os olhos da mulher se arregalam um pouco mais. Entretanto, é óbvio que a percuca que ela carrega jamais comportaria tal penteado. Seu próprio cabelo comporta um certo aspecto desgrenhado, mas ela parece não se importar. Ao chegar no salão de beleza, explica, com certa ansiedade o que deseja. Faz muitos gestos com as mãos e tenta verbalizar estilos que viu na televisão, nos filmes e na rua. Não se pode ouvir nada disso muito bem, mas vemos o cabelereiro assentir constantemente com a cabeça e ao final dizer: “-Vou tentar, senhora”.

Durante a lavagem, o cabelereiro solicita a uma assistente que segure o suporte da peruca para que dê a altura necessária. A assistente realiza seu serviço com um ar de desdém, com uma mão segura a peruca e com o outro segura uma revista aberta, sem, no entanto, parecer ler qualquer coisa. Quando a peruca vai para a térmica, a assistente dá uma movida no ombro, tentando alongar-se um pouco. A peruca ainda passa pelos processos de corte, escovação, secador. Vemos a mulher bater em sequência suas unhas postiças na mesinha ao lado da cadeira onde está sentada aguardando. O cabelereiro, com ar de cumpridor de tarefa, levanta com uma mão a peruca e seu suporte e com a outra um espelho que reflete no espelho maior todos os ângulos de seu trabalho. Leva alguns segundos para o cabelereiro dar se conta que quem deve aprovar é a mulher. Olha então para trás, já menos orgulhoso, e pede com os olhos a concordância da cliente, que com uma alegria quase contida diz “sim” à obra. O cabelereiro prontamente levanta uma lata enorme de laque e fixa a cabeleira. Vemos a mulher partir caminhando mais rápido do que quando chegou…

 

por Gisella Hiche e Maria Fernada Novo

e agora queria fazer as coisas que uma avó faz

cuidar dos netos sem ser a mãe,

beber chá de ervas mais por hábito que por convicção

ir daqui até ali

e considerar isso emocionante.

 

A ela cabe respirar

a cada vez

sentir o peso nos pés

que agora pisam assim

no calcanhar esculpido

no acúmulo dos passos.

 

em azul

tinta represada

na curva da grafia

atenção àquilo que marca

borra

 

acúmulo de uma forma

que comporta esta tarde,

nesta esquina

Rua das Palmeiras

Barão de Tatuí

 

palavras espaçosas

respiradas

espalmam

acolhem-se

em espessuras entateadas

que duram

por mais um café

anoitecer

Anedota sobre o passado

Lembrei-me novamente daquela mesa em que todos estavam espumando e sem muita alternativa enxugavam com o guardanapo de pano a baba no canto da boca. Usá-lo era tão natural quanto a baba. Eu também usava o guardanapo e era horrível; completamente incompatível com o acúmulo de saliva. Como que essa mesa foi montada? Não queria atrapalhar ninguém, mas eu não estava conseguindo segurar o riso, a baba, o mijo, o sangue. Quando podia, levantava-me, saía, mas não havia nada envolta da mesa, o jogo é aqui, entre palavras, saliva, vida.

Anda com a língua passando devagar pelos dentes, encostando neles, esfregando-se. Cada vez que sorri, mostra as pontas do esqueleto se esgueirando para fora. Sentir-se de pedra em processo de calcificação, descalcificação. Matéria antiga dentro do corpo.

branco e preto

solo urbano

textura que nos cabe percorrer

na precisão de um vira-lata

pombo e dado

pelas frestas

um churume da feira

excesso de ácido

laranja

limão

mexerica

escorre

tempo

de compor-se

escapo-me