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memória da velhice

O velho é sempre mais notável quando buscamos a profundidade do tempo em suas rugas, o corpo que deixou os anos passarem, mesmo sem entender, mesmo pecando, sem ao menos lembrar porque mesmo que tinha ido parar ali, como era mesmo? Será que um dia já se apaixonou? O velho é tão fresco em sua miopia de lembrar, que o faz ficar ali, como que ruminando seu quase- estar, metade sendo, metade deixando o tempo ser em si.

 

ritmos

Transição do corpo em primavera

sem quintal para florescer

não alcanço o chão

do meu sétimo andar

SAC

por hora faz sentido

sim senhor

eu

pelo menos

estou entendendo

o número do protocolo é

sim

são quatro dígitos

interferência não vai estar constando

voltar à casa

De que dores nós sabemos
quando elas começam?

Os corredores da casa são bons para alongamentos

na praia gosto que os raios de sol alonguem a pele

quais são meus corpos

lá as vistas no horizontes são de mar e ilhas redondas
apenas pedras revestidas de algum pasto

a tarsila descansa na janela entre cores e redes de proteção

os pés sujam as paredes
mas posso dançar de meias
rolando pela casa
onde no corpo há conforto

apegada aos tecidos imaginados

pela casa por onde se pode mergulhar
supérfluas
suas paredes e chão sem fim
peles frescas
de divisórias quadradas
azulejos
escuto vossa voz
nas fendas que se abrem
pedras dissolvidas
até as estruturas do esqueleto
nos cansaços
retiros
já não sei para que lado vou
devo compor em suas quinas
ninguém deve arrumar as plantas
apenas cuidar
eu sempre sinto sede
germinações brancas

ventos não são de casa
jogo ao mar
horizontes
trepida o reflexo
beleza nas fronteiras
em cada retalho
o manto inteiro
desenho a tessitura

Odo Iyá

fotos: Alexandre Fehr
ação: Gisella Hiche

ferro velho divino

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fotos: Gisella Hiche

relatorial

entendo no meio de quais frases a poesia se faz
esgueirada aqui como uma imagem graciosa
deixo-a abrir seus desertos
horizontes de azul ____ areia

epopéia miúda
entre minha urgência de organizá-la
severamente na corrida
entre planos virtuais
de uma história que me acontece
sem que eu tenha chance de sabê-la

capiau

Seguir o caminho do pensamento
do jeito como ele se desenha
um rio adentra a mata fechada
o canoeiro usa chapéu
cumprimenta o homem
terceira margem do rio

cobra- canoa paulista

Hoje um chinês me gritou:
- és cão, és rato

Lati sorrateira e fui obediente guardar as porteiras do subterrâneo

cobra canoa quis sair
vinda de cima do mapa
até o Tietê

deixei.
ela, grande e colorida
penduricalhos por toda extensão
porta- retrato de algum bisavô

Sorriu-me a dita cuja
dentes de edifícios
espelhados

boca baforenta
guardando aromas
começo do mundo

corre a cobra canoa
pele descamada em asfaltos
tripas metrô

Não ouse voltar , cumprida história
eu disse, coçando pulgas
intrigada: ela nunca termina de sair por completo

não quer saber
avança em sotaques
estrábica
ampliando pistas das marginais:
os canoeiros vão passar

A moça

quarto_de_moca

Capítulo I -

- Chama a moça para que eu lhe conte todas as lendas que lembrei do tempo que caminhei entre as duas estradas recém-asfaltadas pelo prefeito de lá enquanto chovia horrores sobre as passeatas de mulheres com lenço na cabeça porque seus cabelos só eram soltos à noite quando dançavam debaixo das estrelas a orar em festa para que seus filhos, amantes e gatos pudessem se reunir uma vez por semana para tocar instrumentos o quão alto fosse e regras escritas pela mão de homem que acredita em um só destino fossem desfeitas

Capítulo II -

- Oh moça bonita! Reconheço essa luva xadrez. Era mais uma das peças sacis guardadas na gaveta da sapateira do Osmar. Um brinco do par, uma agulha de tricot. Como se um dia, um homem vestindo um paletó mais largo que sua magreza, fosse bater na porta para entregar a outra peça. Bom saber que você caminha com números ímpares.

Capítulo III-

- não posso demorar

Capítulo IV-

Sem maiores explicações, o homem magro e frio, com a parte superior do corpo desproporcionalmente maior que a inferior, levantou-se, entrou corredor adentro. Quando voltou, abriu as mãos e entregou a foto de partes do relógio. Tudo começa assim na estampa da imagem. São como duas borboletas que voam daqui- ali e a vida passou- densa, impressa, piscada.

Capítulo V-

- obrigada

Capitulo VI-

começo a lembrar-me

dos fios da meada

sou eu lá dançando

em noite futura

iluminar com raios

espirais opacas

camadas de sonho

de barro, pedra, asfalto

anunciam-se roda de saia

gira

em rendas tricots

garrafas sopram suas memórias

escritas ao contrário

do tempo em que aconteceram

contam que tudo inicia-se

quando Dédalo abriu as mãos

e soltou as peças do relógio

Capítulo VII

Saiu para a rua, sentiu a mão direita esfriar. Abriu a bolsa apinhada de coisas e pegou o par da luva. Apressou o passo. Antes de chegar, parou na frente do espelho para ajustar o visual:

Cabelo preso e coberto por um lenço.

Rímel a engrossar os cílios.

Lápis borrado no contorno de olhos em ressaca urbana.

Na porta do café, encontrou as colegas, todas parecidas no uniforme para as próximas horas de trabalho.

Naquele dia ouviu três histórias dos rápidos e inconstantes clientes.Uma do ex- padeiro que abandonou a profissão quando, depois de vinte anos de trabalho, queimou toda a fornada de pães (- Olha, eu fico arrepiado só de lembrar. Qual terá sido minha ofensa?). Outra da mulher que estava reformando a casa depois que a parede rachou, devido às obras do metrô (É muito pó, viu? Haja paciência, socorro aquele monte de homem pra lá e pra cá, barulho, poeira.). E por fim, a do rapazinho que ficou horas contando os como, onde e porque de suas tatuagens (Esta daqui, olha, foi no Leo Studio- muito lôco- levei a foto do jornal e falei- põe a cara dele no meu braço).

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