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e agora queria fazer as coisas que uma avó faz

cuidar dos netos sem ser a mãe,

beber chá de ervas mais por hábito que por convicção

ir daqui até ali

e considerar isso emocionante.

 

A ela cabe respirar

a cada vez

sentir o peso nos pés

que agora pisam assim

no calcanhar esculpido

no acúmulo dos passos.

 

em azul

tinta represada

na curva da grafia

atenção àquilo que marca

borra

 

acúmulo de uma forma

que comporta esta tarde,

nesta esquina

Rua das Palmeiras

Barão de Tatuí

 

palavras espaçosas

respiradas

espalmam

acolhem-se

em espessuras entateadas

que duram

por mais um café

anoitecer

Anedota sobre o passado

Lembrei-me novamente daquela mesa em que todos estavam espumando e sem muita alternativa enxugavam com o guardanapo de pano a baba no canto da boca. Usá-lo era tão natural quanto a baba. Eu também usava o guardanapo e era horrível; completamente incompatível com o acúmulo de saliva. Como que essa mesa foi montada? Não queria atrapalhar ninguém, mas eu não estava conseguindo segurar o riso, a baba, o mijo, o sangue. Quando podia, levantava-me, saía, mas não havia nada envolta da mesa, o jogo é aqui, entre palavras, saliva, vida.

Anda com a língua passando devagar pelos dentes, encostando neles, esfregando-se. Cada vez que sorri, mostra as pontas do esqueleto se esgueirando para fora. Sentir-se de pedra em processo de calcificação, descalcificação. Matéria antiga dentro do corpo.

branco e preto

solo urbano

textura que nos cabe percorrer

na precisão de um vira-lata

pombo e dado

pelas frestas

um churume da feira

excesso de ácido

laranja

limão

mexerica

escorre

tempo

de compor-se

escapo-me

em cuias

acumula-se

o tempo de compor-se

Corpo ponto-cego compondo-se com a força da gravidade; vetor que, conforme se imagina e experimenta, amplifica a impressão de se estar em outro idioma, estalado e irmanado com os ossos, menos sutil e de qualidade abissalmente diferente do português.

evidências do tempo

a poeira nas frestas

as rugas na testa

tudo que enguiça

as práticas de encher linguiça

o quê se lembra

e ali se refresca

o esqueleto

o que era rápido e

agora é lento

a história

e o que nela conta

(lógica que só se pode

de gota em gota)

Sinistro controlado

O que mais me surpreendeu do furto do carro, ou do “sinistro”, como a seguradora chama o incidente, é como esta trivialidade urbana já está dentro dos protocolos. Para a polícia, a cotidianidade é tal, que posso fazer o boletim de ocorrência pela Internet, no conforto do lar. Os campos a serem preenchidos na página da delegacia eletrônica atendiam às necessidades de descrição de qualquer cidadão. O rapaz do seguro, de nome Afonso, também tinha uma resposta na ponta da língua para todas minhas dúvidas, que eram as mesmas de todos outros cidadãos que tiveram seu carro furtado e nem se abalaram muito, afinal, era para isso que pagavam mensalmente uma cota para não acharem estranho que, de repente, uma máquina enorme sumisse do mapa. Se eu fosse fazer uma sugestão para a seguradora, esta seria a de treinar os atendentes a dizerem “eu sinto muito”, afinal de contas, são eles que denominam um furto como um sinistro. Sinistro absolutamente sob controle, sinistro educado, bem atendido, com procedimentos claros a serem cumpridos. Também os ladrões são bastante profissionais. São silenciosos, ágeis e devem ter destino garantido para cada parte do veículo. Espero que levem as três sacolas de lixo reciclado que estavam no porta-malas para um posto de coleta. Acho que ficaria bem mais chocada se levassem minha bicicleta, que pegarei amanhã no Ceará Bike, onde deixei para fazer uma revisão. Para as bicicletas não há nenhum procedimento, nenhuma educação, nenhuma via para se locomover com segurança.

resistências

Aconteceu de tornar-se uma palhaça de trupe formada por um moço cumprido que toca sanfona, um fotógrafo de paredes, edifícios e quarteirões demolidos do bairro da Luz, uma mulher de Recife, feminista, o homem que morou dez anos na Inglaterra e interessa-se por filosofia da matemática e o estudioso de paisagem e poesia. Trupe de pessoas da cidade, pessoas de cantos, arestas, que com uma suficiência satisfatória de alegria saem com seu bloco pelas ruas, durante o Carnaval paulistano. Tudo beira, silenciosamente, a decadência. A cidade foi evacuada, o sol parece de inverno, a palhaça acredita na potência de agitamento causado pela sua indumentária de bolas coloridas de vermelho, amarelo, verde, um babado, um dourado. Promessa ínfima e reticular no cenário de restos. Se não houvesse graça nisso, a palhaça derradeira certamente não faria a travessia com o bloco carnavalesco.

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